PONTO DE VISTA
O ASSALTO


Os portugueses estavam tão eufóricos a festejar a boa figura da equipa nacional no Euro 2004 que foram apanhados de surpresa: em dois tempos, o desacreditado Barroso, que parecia prestes a cair, trepou para Bruxelas e deixou a pasta a um aventureiro ainda mais atrevido e descarado. A crise do governo de direita resolveu-se por um governo mais à direita.
Estupefactos com a golpada e com a catadupa de leis celeradas que se sucedem, os democratas lamentam-se: “E isto acontece no país do 25 de Abril? E o Presidente consente?!” Melhor seria concluir que, se nos acontece isto a nós, é sinal de que o regime já não é nada daquilo que julgamos.
Se nos dão como governo o trio Santana-Portas-Bagão, se o PS só pensa em “modernizar-se” para merecer a alternância, se o presidente se comporta como uma dócil marioneta –, é porque o regime se tornou simples gestor dos negócios graúdos. O que nem espanta, tendo em conta o abismo entre os apetites da burguesia e a capacidade de resposta do proletariado.
O grande desígnio que os homens do capital têm vindo a perseguir sem descanso, desde há trinta anos, está agora em cima da mesa. Com as costas quentes pelos magnates de Bruxelas, eles exigem tudo o que em tempos foram forçados a ceder e mais ainda! Os trabalhadores que paguem a crise!
Querer travar este assalto só com os meios autorizados pelos próprios salteadores é próprio de mentecaptos ou de aspirantes a ministros. Só quando se libertar a indignação das massas amordaçadas – que a burguesia finge desprezar mas que receia mais que tudo – alguma coisa mudará no rumo da política nacional.


"Quando a luta de classe é rejeitada como uma coisa 'brutal', a única base que fica ao socialismo são os 'sentimentos humanos' e o palavreado sobre a 'justiça'."

Marx-Engels, Carta a Bebel, 17 Setembro 1879


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