COMO O POVO ELEGEU BUSH
Fernando Coelho (em Londres)


Um presidente bronco, que arrastou o país para uma aventura de saque do petróleo iraquiano, que fez explodir a dívida pública e que presenteia os super-ricos com benefícios fiscais, teve o apoio da maioria dos votantes nas eleições mais participadas dos últimos 30 anos. Como foi isto possível?

À conclusão da Segunda Guerra Mundial, os EUA eram a fábrica e a banca do mundo. Em 1945 quase dois terços da produção mundial era norte-americana e o dólar impunha-se como a base do sistema monetário internacional. O dólar era no pós-1945 o que o ouro havia sido no pré-1914. A par do sucesso económico estava a confiança no poderio militar americano. Os EUA autoproclamavam-se solitários vencedores da Segunda Guerra. Com a bomba atómica, a mais mortífera arma da história humana, quem poderia travar o seu avanço? Se o século XIX havia sido o século do Império Britânico, o século XX seria o século americano.
Mesmo com a paranóia que se instalou nos anos 50, da ameaça do “império do mal” (a União Soviética), o capitalismo americano estava confiante no carácter progressista do seu poder. J. F. Kennedy, o ícone dos “anos gloriosos” do capitalismo (o período de 1950 a 70), enunciava em 1961 a missão dos EUA: “O génio dos nossos cientistas deu-nos as ferramentas para trazer abundância para a nossa terra, força para a nossa indústria e conhecimento para o nosso povo. Pela primeira vez temos a capacidade de destruir os elos que nos prendem à pobreza e à ignorância.” Para uma audiência de líderes da América Latina, Kennedy proclamava uma política internacional em tons fraternos: “Os nossos continentes estão unidos por uma história comum, a infindável exploração de novas fronteiras. As nossas nações são o produto de uma luta comum, a revolta contra o jugo colonial. E o nosso povo partilha uma herança, a busca pela dignidade e pela liberdade do homem”. A ideologia dos “anos gloriosos” exaltava a democracia liberal e a ciência como garante do crescimento económico, do saber e da cultura. Os EUA vestiam a pele de irmão dos povos, o benevolente senhor do século XX que promovia abundância económica e cultural para todos.
Hoje, a direita americana, apelidada de neoconservadora, promete que o século XXI será também um “século americano”. O “Projecto para o Novo Século Americano” (Project for the New American Century), que conta com o apoio do vice-presidente Dick Cheney, do secretário de Estado da Defesa Donald Rumsfeld e do seu adjunto Paul Wolfowitz, do irmão de George Bush e governador da Flórida, Jeb Bush, entre outros, planeia mais 100 anos de domínio americano do mundo. Contudo, a ideologia do capitalismo americano nos 40 anos que separam Kennedy de George W. Bush mudou em muito. Embora permaneça a mitologia da nação guerreira, vencedora da Segunda Guerra e da Guerra Fria, e a justificação do poderio americano a bem da democracia e da economia liberal, a confiança da década de 60 foi em 2000 substituída pela incerteza.
O mundo é para os neoconservadores povoado de perigos. Regimes “sem-lei” e organizações terroristas propagam um contagioso anti-americanismo que rejeita com ódio os valores da gloriosa América. Aos olhos dos neoconservadores, para lá das fronteiras americanas está uma perigosa coligação de ódio à “liberdade” (esta “liberdade” é na nacionalista cultura americana o mesmo que a bandeira ou o hino, um mero símbolo). Com os ataques às Torres Gémeas em Nova Iorque, a visão pessimista dos neoconservadores sobre um mundo anti-americano saiu reforçada. Bush comentava sobre o mundo pós-11 de Setembro e no rescaldo da invasão do Afeganistão: “Compreendemos que esta é uma década decisiva na história da liberdade, e que fomos chamados para um papel único na história da humanidade. Jamais o mundo enfrentou uma escolha tão clara e importante... Firmes no nosso propósito, devemos avançar. Foi-nos revelado o preço a pagar pela liberdade. Mostrámos o poder da liberdade. E neste grande conflito, veremos a vitória da liberdade”. Esta nova ideologia assenta no medo; o medo de que o Império Americano seja incapaz de manter a sua solitária hegemonia e a defesa dos seus interesses. A nova direita avisa: “A actual paz americana será curta se os Estados Unidos se tornarem vulneráveis a Estados sem-lei, com pequenos e baratos arsenais de mísseis balísticos, ogivas nucleares e outras armas de destruição massiva”. A actual capacidade das forças armadas norte-americanas para enfrentar os desafios do mundo actual pode não ser suficiente, e antecipa-se sempre o pior dos cenários. O mundo violento e irracional que os neoconservadores descrevem tem, segundo os mesmos, de ser enfrentado com urgência e violência.


A VITÓRIA ELEITORAL DE BUSH

Tem sido muito publicitada na Europa a influência do projecto neoconservador na Presidência Bush. Mas não é tão facilmente reconhecida uma outra face desta ideologia, revelada pela vitória eleitoral de Bush: o apoio popular de que este projecto dispõe nos EUA. Um presidente patentemente bronco, que arrastou o país para uma aventura de saque dos recursos petrolíferos do Médio Oriente, que fez explodir a dívida publica e que presenteia os super-ricos com benefícios fiscais, teve o apoio da maioria dos votantes nas eleições mais participadas dos últimos 30 anos. Como foi isto possível?
Segundo uma sondagem à boca das urnas, a questão mais importante a influenciar o voto de 22% do eleitorado foram os valores morais (“moral values”); 20% referiram a situação económica, 19% o terrorismo, e somente 15% acharam que o Iraque era a principal questão que afecta os EUA. Que a invasão e ocupação do Iraque tenha um papel diminuto na avaliação dos principais temas eleitorais não é motivo de surpresa. Democratas, republicanos e media esforçam-se por desinformar o público sobre a resistência iraquiana, criando a impressão de que tudo vai bem, à excepção de uns tantos árabes de países vizinhos que querem fazer do Iraque campo de batalha para a sua insana jihad. O que é surpreendente é que “valores morais”, ou seja, religiosos, contem como principal influência para o voto.
Oitenta por cento dos que consideraram a moralidade a questão mais importante destas eleições votaram em Bush. A sociedade norte-americana é hoje massivamente crente. Noventa por cento dos norte-americanos dizem-se religiosos, e o Partido Republicano soube explorar esta realidade, construindo uma sólida aliança com a direita evangélica. Os termos desta aliança são transparentes: desde o início da sua presidência, Bush tem enchido os bolsos da Igreja. Iniciativas em educação e reformas do sistema prisional são repetidamente entregues a organizações evangélicas. O efeito desta política foi profundo: em alguns estados a igreja domina o sistema educativo, a tal ponto que nos currículos de biologia a versão bíblica da génese humana substituiu a versão darwiniana da evolução das espécies. Este retrocesso social promete reforçar-se com a penalização do aborto e com a proibição constitucional do casamento entre homossexuais. Em troca do apoio presidencial, o púlpito eleva Bush a salvador da América moral. A nova direita veste-se com solenidade religiosa: a Nação Americana foi escolhida por Deus.
A eleição de 2 de Novembro é o culminar de 30 anos de trabalho ideológico. A nova direita funda-se na religião e no populismo. O populismo do Partido Republicano é um misto de anti-intelectualismo e de evocações sentimentalistas da humilde mediania da América interior. As frequentes férias de George W. Bush, as suas gaffes, a sua linguagem simples e directa e os seus maneirismos musculados são parte da farsa. A eficácia deste teatro está em transformar Bush num homem do povo, simples e honesto. Os media que na campanha eleitoral apontavam o pedigree de Kerry, um milionário do ketchup com ares de intelectual, esqueciam que Bush é ele também milionário, educado numa universidade de elite, financiado generosamente pelo pai em inúmeras negociatas infelizes. Apresentavam um Bush que só se sente verdadeiramente feliz na sua quinta, entre os cavalos, de mangas arregaçadas em comunhão com a terra, entre churrascos e cerveja. Esta propaganda pretende redireccionar a hostilidade de classe da América interior, trabalhadora e em permanente precariedade, contra os intelectuais e contra a esquerda, identificados com a elite económica e política pelas suas preferências culturais.
A nova direita define-se em defesa de três Fs: “faith, family, flag” (fé, família, bandeira) – um desconcertante paralelo com esses outros Fs do fascismo português. Trata-se claramente de um movimento reaccionário, que substitui a política pela fé, a classe pela família e a nação. O seu sucesso assenta no medo. A base popular da direita vive no medo da mudança, o medo de que esta perca a América.


A DOENÇA DO CAPITALISMO AMERICANO

A vitória eleitoral de Bush tem sido atribuída à brilhante estratégia eleitoral de Karl Rove. Abandonando o protocolar namoro do centro político, os republicanos procuraram aumentar a votação dos sectores mais reaccionários da sociedade. Contudo, para além dos cálculos da estratégia eleitoral, há uma base material para esta evolução ideológica – a frágil saúde do capitalismo norte-americano.
No apogeu do capitalismo, com taxas de lucro em subida e um crescimento económico sem precedentes, prometia-se algo para todos. O abismo entre ricos e pobres nunca chegou a diminuir; mas, com os salários a acompanhar o crescimento produtivo, também não havia aumento da desigualdade. A elite política dos “anos gloriosos” apresentava o capitalismo como progressista porque, com parte do quinhão do saque imperialista a alimentar o Estado Providência, podia garantir progresso social à classe trabalhadora. O capitalismo celebrava a ciência e a benevolência da sua liderança sobre o mundo.
Com os anos 70 instalou-se a situação económica inversa; o declínio do capitalismo americano tornou-se a regra. Em 1950 os EUA eram responsáveis por metade da produção industrial do mundo; em 1999 este valor tinha sido reduzido para um quarto. No campo do confronto imperialista, os EUA foram ultrapassados pela Europa em investimento directo estrangeiro: em 1960, 47% do investimento directo estrangeiro era controlado por norte-americanos; em 2001 estava reduzido para 20%. A ascensão europeia trouxe a esta o controle de vários sectores produtivos, antes do exclusivo domínio americano: electrónica, telecomunicações, petróleo, indústria automóvel, aeronáutica. No plano financeiro, o dólar permanece a moeda de base do sistema monetário internacional mas a sua importância reduz-se. De maior credor mundial, os EUA passaram, desde 1986, a devedor crónico, com uma dívida pública alimentada por um défice comercial galopante – tudo motivos para o enfraquecimento do dólar. Como consequência, as reservas em dólares retidas pelos vários países, que em 1976 eram de 76%, são em 1990 de 50%. A criação do euro faz prever que esta tendência se intensifique. Só com recurso a ameaças conseguiram os EUA impedir em 2003 que a OPEP convertesse as suas transacções de dólares para euros, o que teria sido um golpe terrível para a finança americana.
O declínio do capitalismo americano manifestou-se na desindustrialização do país. A indústria foi deslocalizada para o Terceiro Mundo em busca de engrossar lucros, e impondo sobre a economia nacional desemprego e precariedade do trabalho. Os salários em decréscimo foram acompanhados pela destruição do Estado Providência. A Medicare, o sistema nacional de saúde, foi estrangulada, e os benefícios ao trabalho (desemprego, invalidez, etc.) severamente reduzidos. Trinta anos de retrocesso económico e social destruíram o sonho do capitalismo como garante de progresso. Para a classe trabalhadora americana tantas vezes derrotada, o medo de perder o que ainda tem instalou-se e o ópio religioso é tragado como alívio.
A elite política do presente ajustou as suas utopias (ou distopias, ambas são eficazes). Os políticos e os media alimentam o medo do futuro, prevendo mais crise económica, mais terrorismo, mais mudança. O mundo da direita é dividido em blocos morais e emocionais, o bem (América) contra o mal (Anti-América). A promessa neoconservadora é combater com ferocidade a mudança, atacando preventivamente todos os que se atrevam a criticar a América. Estes são, para a direita, potenciais agressores e culpados do seu declínio actual. A presidência Bush promete preservar a influência e o poder da América, em rápida erosão nas últimas décadas.
A actual política expansionista norte-americana não é mais que uma tentativa de resolver a crise do seu capitalismo à custa do petróleo e do sangue iraquiano. As nações que compõem o campo anti-americano são escolhidas, não por serem críticas dos pseudo-valores americanos, nem por serem um perigo para a sua segurança nacional (a prática mostra que esses critérios são irrelevantes); são escolhidas porque a sua riqueza é cobiçada pela burguesia americana. E esta política tem apoio popular. A direita conseguiu refazer ideologicamente a América, redireccionando o antagonismo das classes, o descrédito do capitalismo e o medo do futuro num militante reaccionarismo militarista. Quando o capitalismo já não pode dizer-se o melhor dos mundos, refugia-se no medo de mundos piores.


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